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23 de junho de 2012

Os novos contratados.


O que nos quereria dizer o Secretário de Estado da Administração Escolar, João Casanova, ontem no Parlamento?

"Temos de considerar que os professores com vínculo ao ministério da educação devem ter uma atenção muito especial. Não devemos colocar em risco o seu lugar por contratações que vão para além das necessidades do sistema."


O que Casanova nos quis dizer foi que:
  • sim, é verdade que a essência do trabalho deste MEC tem como finalidade a redução da despesa;
  • o limite de redução da despesa é, por enquanto, manter no sistema os professores do quadro;
  • deve-se entender por necessidades do sistema, aquelas que os professores do quadro, e só estes, consigamos que aguentem;
  • como consequência da saída dos professores contratados, os professores do quadro passarão por mais precariedade;
  • iludam-se ao pensar que esta nova precariedade só passará pelas condições de trabalho, atribuladas e instáveis, pelo custo de manter um lugar;
  • sentirão os professores do quadro que, na falta de contratados, a fragilidade no sistema chegará ao topo. O anúncio da morte dos mais graduados chega, lentamente, pela morte dos soldados;
  • o peso de uma aposentação cada vez mais tardia; o peso de enfrentar turmas cada vez maiores; o peso de não poder deixar para os contratados as turmas que os professores do quadro não desejam; o peso dos horários não desejados não poderem ficar para os contratados; o peso de uma convivência de grupo dividida, até agora muitas vezes unida pelo fardo de factores fracturantes que o contratado silenciosamente carregava, cairá sobre os ombros de alguns, mal habituados, professores do quadro.

Nesta hierarquia, a importância dos que estão na base da pirâmide só será notada quando estes deixarem de existir, porque outros a seguir ocuparão o seu lugar, serão esses os novos contratados.

7 comentários:

Afonso J. disse...

Muito bem visto! Acrescentaria os cargos chatos que por hábito eram atribuídos aos contratados, direções de turma e tal e coisa...

Anónimo disse...

Caros colegas estou no quadro há 6 anos e desde então que me sinto na posição de "novos contratados". Logo no primeiro ano chego ao agrupamento acabada de vincular e dou comigo em horário zero, o que significa isso??? meses e meses a substituir colegas pelas aldeias longínquas do Alentejo... Ora era uma manha ali... Uma tarde acolá. Até que se lembraram que também deveria apoiar em outro agrupamento vizinho, virei educadora SOS ou educadora de apoio a 530 km de casa, no 1 escalão da carreira docente. As saudades que tive de ser contratada...
E continuo todos os anos a concorrer a DACL, sem conseguir encontrar um lugar por quatro anos e vinculada ao Alentejo. Do quadro ou contratados??? Que vida??

Anónimo disse...

Muitos mais haverá na situação da colega anterior...

Anónimo disse...

Caro Nuno,
Concordando com a generalidade do texto, devo dizer que, dos meus mais de trinta anos de serviço, com mais de vinte na mesma escola, e depois de ter passado por (quase) todos os cargos da minha escola, ainda me calha o pior. Por exemplo, lecionar CEF, direção de turma e diretor de curso, como este ano. E só este ano escapei do secretariado de exames. E havia muitos contratados a quem poderiam ter sido atribuídos esses cargos e turmas. Isto só para dizer que a prática de entregar aos contratados o pior não é generalizada.
E a verdade é esta: os contratados que conheço são excelentes profissionais que acarinho e apoio em tudo o que posso, tentando evitar paternalismos. Deles também recebo muito: novas ideias, mas, fundamentalmente, a sua amizade sincera.
JR

educar A educação disse...

Caro(a) JR,

Obrigado pelo testemunho. Não me é surpreso, todos sabemos que as "simpatia" das direcções não são as mesmas por todos os professores, nem de escola para escola, nem dentro da mesma escola. E não me venham falar em só confiarem nos mais competentes, porque na ADD foi a vergonha que se viu.
É evidente que já há alguns velhos "novos contratados", mas não tenho dúvidas que o seu número aumentará.
Entendi perfeitamente a passagem da "amizade sincera" e diria mais: sem vícios.
Um abraço.

Anónimo disse...

Excelente naco de prosa Nuno.
Jake

Anónimo disse...

Concordo, Jake.
Bom trabalho, Nuno.
E eu é que agradeço.
Abraço.
JR